Sudeste tem cobertura de mamografias de 23,7% em 2025
A nova atualização do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama revela que a região Sudeste tem a segunda melhor taxa de cobertura de mamografias do Brasil para a população-alvo, que compreende no estudo mulheres de 50 a 69 anos (em Outubro de 2025 o Ministério da Saúde ampliou a idade alvo mas o estudo considera o protocolo anterior para esta leitura). O patamar alcançado pela região foi de 23,7% em 2025, ante média nacional de 22,1% e de 25,6% no Sul. O mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto, é de 70%, e a região Sudeste tem a maior incidência de câncer de mama no país, com 51,7 casos por 100 mil mulheres.
A plataforma, atualizada anualmente utilizando fontes de dados públicos, é resultado de parceria entre o Instituto Natura e a Avon com o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e o Instituto Protea. Coletados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), os dados de 2025 mostram que o Rio de Janeiro se destaca negativamente na região, com apenas 15,4% de cobertura mamográfica no ano. São Paulo apresentou o melhor desempenho da região e um dos melhores do país, com cobertura de 28,7%. Espírito Santo registrou 23,2% e Minas Gerais, 20,2%.
“Mesmo com o segundo melhor resultado do País, a região sudeste ainda tem menos da metade do mínimo de cobertura mamográfica recomendado pela OMS, um alerta que deveria ser grave para todos os gestores públicos. Além disso, vemos desigualdade entre os estados, com São Paulo mais de 10 pontos percentuais à frente do Rio de Janeiro”, diz Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura.
“O local onde uma mulher vive não pode determinar suas chances de garantir o diagnóstico precoce do câncer de mama e o acesso ao tratamento em tempo oportuno. Por isso, precisamos garantir em todo o Brasil políticas públicas de qualidade, que olhem para o cenário do território e consigam mover as alavancas fundamentais, como oferta de rastreamento de qualidade, linhas de cuidado com protocolos que agilizem o percurso e monitoramento constante dos dados”, afirma Mariana.
Aumento de diagnósticos em fase avançada
A relação entre baixa cobertura mamográfica e diagnósticos tardios, quando há menos chances de prognóstico positivo, fica evidente pelos dados do Panorama. Analisando a série histórica de 2015 a 2025, o Rio de Janeiro foi o estado do Sudeste com a proporção mais preocupante de diagnósticos tardios, atingindo 60,5% dos casos detectados já nos estágios avançados (estádios 3 e 4) da doença.
Na mesma série histórica:
- Rio de Janeiro (RJ): 60,5% de diagnósticos tardios;
- São Paulo (SP): 49,0% de diagnósticos tardios;
- Espírito Santo (ES): 46,8% de diagnósticos tardios;
- Minas Gerais (MG): 45,7% de diagnósticos tardios.
Contexto nacional e a importância do monitoramento
O levantamento nacional mostra que 51% de todos os casos de câncer de mama registrados entre 2015 e 2025 no Brasil foram diagnosticados em estágios avançados da doença. Além disso, a taxa nacional de cobertura mamográfica para a população-alvo, de 50 a 69 anos, sofreu uma diminuição no último ano, passando de 22,8% em 2024 para apenas 22,1% em 2025.
Neste ano, a análise de diagnósticos e do tempo de tratamento do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama deixou de utilizar a Base RHC (Registro Hospitalar de Câncer), considerada defasada, e passou a utilizar os dados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), mudança de metodologia que revelou um cenário ainda mais desafiador do que o estimado anteriormente.
“Esta atualização representa um avanço importante para o monitoramento do câncer de mama no Brasil. Com dados mais recentes do Painel de Oncologia do INCA, conseguimos compreender com maior precisão a jornada das pacientes, identificar gargalos e desigualdades e produzir evidências que contribuam para políticas públicas mais efetivas”, comenta Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.
Outro dado alarmante recai sobre as mulheres mais jovens, justamente as que estão fora da idade de rastreamento ativo recomendada pelo Ministério da Saúde (50 a 69 anos) — neste ano, a mamografia de rastreio a partir dos 40 anos foi autorizada no SUS, mas somente sob demanda. Segundo o Panorama, 68,3% das pacientes entre 20 e 29 anos recebem o diagnóstico já nos estágios três ou quatro da doença; entre as de 30 e 39 anos, foram 61,9%; e na faixa de 40 a 49 anos, 53,7%. Dentro da faixa etária alvo do exame, 47,6% foram diagnosticadas tardiamente.
O impacto das falhas no rastreamento, assim como no tempo de tratamento, reflete-se no aumento de óbitos. Entre 2015 e 2025, o Brasil registrou 203.785 mortes por câncer de mama, sendo 21.668 apenas em 2025, o maior número registrado na série histórica. No recorte racial, 55,4% dos óbitos em 2025 ocorreram entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.
“É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados, enquanto o país registra aumento da mortalidade pela doença. Esse resultado reforça a necessidade de qualificar a linha de cuidado, com uma rede capaz de assegurar acesso oportuno, redução de desigualdades, integração entre os serviços e continuidade da assistência desde a identificação de uma suspeita até o tratamento. Tudo isso é fundamental para melhorar os desfechos das mulheres com câncer de mama no Brasil”, afirma Nira Cará, diretora-executiva do Instituto Protea.
Fonte: Medicina S/A
