Radioterapia é usada em 37,7% dos homens com câncer de mama
Quase quatro em cada dez pacientes com câncer de mama masculino receberam radioterapia em algum momento do tratamento. É o que aponta levantamento da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), realizado a partir de dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC). Dos 2.126 casos da doença em homens registrados entre 2020 e 2023, 802 receberam radioterapia, isoladamente ou em combinação com outras modalidades terapêuticas, o equivalente a 37,7% dos pacientes.
O tratamento do câncer de mama masculino pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia. No levantamento, a quimioterapia foi utilizada em 995 pacientes, a cirurgia em 917, a radioterapia em 802 e a hormonioterapia em 578. Como um mesmo paciente pode receber mais de uma modalidade ao longo do tratamento, os dados incluem terapias utilizadas isoladamente ou em diferentes combinações.
Um estudo brasileiro publicado na revista científica Clinical Oncology avaliou o impacto da radioterapia após a cirurgia no tratamento do câncer de mama masculino. A pesquisa analisou retrospectivamente dados de 907 homens diagnosticados com a doença entre janeiro de 2000 e julho de 2020, a partir de informações da Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP), que reúne dados de uma população de aproximadamente 46 milhões de pessoas. Os resultados mostraram que os pacientes que receberam radioterapia após a cirurgia apresentaram melhor sobrevida global, com redução de 33% no risco de morte observada na análise, reforçando o papel da modalidade no tratamento de pacientes selecionados.
Segundo o radio-oncologista e presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), Wilson José de Almeida Jr., a indicação da radioterapia deve considerar as características do tumor e o risco de recorrência da doença. “A radioterapia pode ter um papel importante após a cirurgia, especialmente em situações em que há maior risco de a doença retornar na região tratada. A escolha da estratégia depende das características do tumor e das condições clínicas de cada paciente. Mas o mais importante é que o câncer de mama masculino seja diagnosticado precocemente e que o paciente passe por uma avaliação individualizada”, explica Almeida Jr.
Homens: 1 entre 100 casos – De acordo com as novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Desse total, 78.610 correspondem ao câncer de mama, o equivalente a cerca de 10% de todos os novos casos estimados no país a cada ano. Entre as mulheres, o câncer de mama é o tipo mais incidente, representando 30% dos casos novos estimados, sem considerar os tumores de pele não melanoma. Já entre os registros de câncer de mama analisados pela SBRT no RHC entre 2020 e 2023, 1,30% ocorreram em homens. “A população precisa saber que o câncer de mama pode acometer homens e, inclusive, ser também letal nesse público nos casos mais avançados”, completa Almeida Jr.
Metástase é proporcionalmente mais frequente entre homens – O levantamento também avaliou o estadiamento do câncer de mama, classificação que indica a extensão da doença no momento do diagnóstico e vai do estádio 0 ao IV. Entre os homens com estadiamento registrado, 16,82% estavam no estádio 0, 3,41% no I, 17,48% no II, 32,34% no III e 29,95% no IV. Entre as mulheres, 12,78% estavam no estádio 0, 5,45% no I, 20,20% no II, 35,15% no III e 26,42% no IV.
Os estádios III e IV, que correspondem a quadros mais avançados, concentraram 62,29% dos casos entre os homens e 61,57% entre as mulheres. A diferença aparece principalmente no estádio IV, quando o câncer já apresenta metástase, registrado em 29,95% dos homens e 26,42% das mulheres. No estádio I, por sua vez, a proporção foi de 3,41% entre os homens e 5,45% entre as mulheres.
A maior proporção de casos no estádio IV entre os homens chama a atenção para o diagnóstico da doença nesse público. “Os dados reforçam o cenário dos diagnósticos tardios. Além de muitos homens desconhecerem que também podem desenvolver câncer de mama, existe uma questão cultural relacionada à menor procura por atendimento médico de rotina e, muitas vezes, à demora para buscar avaliação quando aparecem sintomas. Isso pode fazer com que a doença seja identificada em estágios mais avançados”, explica.
Embora o câncer de mama seja muito menos frequente nos homens, alterações na região das mamas também devem ser investigadas. Nódulos, mudanças na pele ou no mamilo e outras alterações persistentes merecem avaliação médica. “Quanto antes a doença for identificada, maior é a possibilidade de planejar o tratamento de forma adequada e individualizada”, afirma Almeida Jr.
De acordo com a American Cancer Society, o risco de câncer de mama masculino aumenta com a idade. Outros fatores incluem alterações hereditárias em genes como BRCA1 e BRCA2, histórico da doença em familiares próximos e obesidade. Condições que podem elevar os níveis de estrogênio no organismo, como a síndrome de Klinefelter e algumas doenças do fígado, também estão associadas a um risco maior, assim como determinados tratamentos que utilizam estrogênio.
Fonte: Medicina S/A
